Deixa agir! Tira Coca-Cola!

Deixa agir! Tira Coca-Cola!

Casamo-nos, Valéria e eu, logo no primeiro dia do ano de 1992, bem no dia primeiro de janeiro. Como se deve imaginar, a igreja estava com pouquíssima gente e os bancos bem vazios, o que era perfeitamente natural para um feriado de Ano Novo, já que a grande maioria dos nossos amigos tinha passado da conta na virada e estava sofrendo com aquela ressaca monumental. Mas é claro que existia uma explicação muito lógica para a gente ter escolhido uma data tão incomum: nós namoramos por um ano certinho, começando justamente no réveillon de 1991, e decidimos que já era a hora de casar. A princípio, tínhamos marcado a cerimônia para o dia 10 de janeiro, mas, bem na última hora, o padre da paróquia ganhou uma viagem inesperada para essa mesma data. Como a nossa própria viagem de lua de mel já estava toda programada e com as passagens compradas, a única data que restou disponível na agenda da igreja antes de partirmos foi o próprio dia 1º. Não tivemos escolha e embarcamos nessa.
E no fim das contas foi bom, porque acabamos fazendo duas viagens inesquecíveis: uma para Poços de Caldas, ali na nossa terrinha mineira, e logo em seguida outra para Porto Seguro, na Bahia. Aquele ano inteiro de namoro e os dois primeiros anos do nosso casamento foram uma época de pura diversão e curtição, cheia de passeios, dias na praia, idas ao boteco, churrascos com o pessoal e noitadas que não tinham hora para acabar. Nós basicamente continuamos com o ritmo e a mesma vida de solteiros que tínhamos com os nossos melhores amigos, com o único detalhe de que agora estávamos sempre juntos. Bem, sempre também já é um exagero, porque nós fazíamos questão de manter a nossa independência e tínhamos total liberdade para sair com nossos amigos separados. Então, para ser bem sincero e falar a verdade, nós estávamos quase sempre juntos.
Já no finalzinho de 1993, quando estávamos curtindo as férias na praia de Ubatuba — que todo mundo sabe que é praticamente a praia oficial dos sul-mineiros —, nós engravidamos. E foi assim que, no dia 6 de maio de 1994, veio ao mundo a nossa primeira filha, o momento exato em que a minha vida mudou e eu me tornei pai da Kim. E é sobre ela que eu vou começar a contar a partir de agora.
Reconheci-a de primeira assim que cheguei no berçário da maternidade, pois ela se destacava completamente dos outros bebês: era aquela menininha que já ficava tentando levantar a cabeça com toda a força do mundo, parecendo que estava curiosa e se esforçando para enxergar quem era a pessoa que a observava ali do outro lado da vidraça. Dava para ver que ela já nasceu espertíssima! Sempre que eu conto essa história, todo mundo começa a dar risada e diz que é só coisa de pai coruja inventando história, mas eu garanto que foi a mais pura realidade e um fato incontestável. Aquela bichinha nasceu com uma inteligência fora do comum e já mostrava isso desde as suas primeiras horas de vida!
Ela era a primeira neta da família pelo lado da Valéria, então já dá para imaginar o tamanho do xodó e da bajulação que foi em cima dela! Os avós corujas simplesmente não saíam de perto do berço por nada desse mundo, querendo acompanhar cada respiro da menina. O grude era tanto que ela acabou aprendendo a falar "bobô" antes de conseguir pronunciar "papá". E para ser bem sincero, eu tenho uma boa parcela de culpa nessa história: enquanto o avô ficava ali todo babão repetindo “fala vovô”, eu cismei que queria que ela me chamasse pelo meu próprio nome, Joaquim. Na minha cabeça meio revolucionária e cheia de ideias da época, eu achava que ela precisava saber o meu nome de verdade, afinal de contas, o meu nome não era "papai". De onde será que eu tirei isso? Mas a verdade é que logo me arrependi e corri atrás do prejuízo para recuperar o tempo perdido, e ela aprendeu a me chamar de papai rapidinho.
E para ver como as coisas eram, quem deu o primeiro banho nela em casa foi a avó! Na hora em que eu vi aquela cena, confesso que morri de ciúmes de não ser o primeiro a fazer aquilo. Não me contive e já fui logo avisando todo mundo, bem firme, que o próximo banho seria meu e de mais ninguém! Ah, mas eu fazia questão absoluta de assumir a responsabilidade dali em diante!
E falando desses primeiros dias, uma cena que ficou marcada na minha memória e que nunca vou esquecer foi quando eu precisei levá-la ao posto de saúde para tomar as primeiras vacinas. Na hora da picada, ela até que não chorou tanto assim e foi supervalente, mas o que veio depois: ela simplesmente se recusou a olhar para a minha cara durante todo o trajeto de volta para casa, virando o rostinho para o outro lado como se estivesse muito chateada comigo. Eu quase morri de tanto remorso e com o coração na mão por ver ela daquele jeito, mas fazer o quê? Era um sofrimento totalmente necessário para o bem e para a saúde dela!
A pequerrucha foi crescendo e, quando a gente menos esperava, ela já estava andando para todo lado e tagarelando sem parar. Nessa época, a hora do banho já tinha mudado e ela tomava banho sentadinha dentro da banheira, embaixo do chuveiro.
Um detalhe curioso é que, apesar de eu ser muito branco e a Valéria ser bem morena, a Kim nasceu ainda mais branquinha do que eu. Ela tinha a pelezinha tão clara e sensível que me exigia uma atenção redobrada e todo o cuidado do mundo.
Antes de começar a lavá-la de verdade, eu sempre a deixava ali na banheira brincando um pouco com a água para se distrair. Mas a parte que ela mais gostava era lavar os cabelos, que na época ainda eram bem ralinhos, usando shampoo. Ela fazia uma questão absoluta de participar desse processo. E eu achava aquilo o máximo e me divertia demais com a cena: eu colocava um pouquinho de shampoo na mãozinha dela e ela mesma começava a esfregar a cabeça com toda a seriedade do mundo, fazendo aquela espuma generosa. Logo em seguida, eu já vinha com o chuveirinho para enxaguar, mas ela imediatamente segurava a minha mão com firmeza, olhava para mim e dizia, com toda a autoridade e de forma categórica:
— Não! Deixa agir! O shampoo...
Eu ficava completamente sem reação e dando risada sozinho, porque até hoje eu nunca consegui descobrir onde foi que aquela coisinha linda, que não tinha nem dois anos de idade completos, tinha aprendido uma expressão dessas!
Uma outra coisa que era simplesmente incrível e que ninguém acreditava era o fato de que, nessa idade, ela adorava fazer exame de sangue. Aquela agulha enorme não metia medo nenhum nela, e tudo por causa de uma história que a biomédica do laboratório inventou na primeira vez. Para acalmar a menina, a profissional disse para ela que o sangue que saía na seringa parecia Coca-Cola. A Kim levou aquilo tão a sério que, de tempos em tempos, ela vinha me pedir, com a maior naturalidade do mundo, para ir ao laboratório tirar um pouco de Coca-Cola do braço. Dá para acreditar em uma coisa dessas?

Compartilhe essa obra

Inspiração

Esse texto, na verdade, é o início de um livro que eu estou escrevendo para contar um pouco de como foi a minha participação e a minha experiência na criação dos meus filhos. Esse é apenas o primeiríssimo capítulo e o começo de “Pai de três”.

Sobre a obra

Meio que uma crônica a se juntar a outras contando o dia a dia de um pai de três crianças.

Sobre o autor

Longe de mim a audácia de reivindicar o título de artista; vejo-me, na verdade, como um mero arremedo do que a verdadeira arte representa. Movido por uma inquietação constante, permito-me o risco de desbravar as palavras na escrita, de traçar linhas no desenho e de misturar cores na pintura, e, bem mais esporadicamente, ouso praticar a fotografia.

Autor(a): JOAQUIM MARCELINO DE ANDRADE NETO (Lino Andrei)

APCEF/DF