O Solar da Estrela Marrom

O Solar da Estrela Marrom

Numa das esquinas do quadrilátero que delineia a Praça Domingos Mourão Filho, que o povo só chama, carinhosamente, de Praça da Matriz ou Praça Nova, você vai se deparar com um ainda bem conservado casarão, que se destaca no conjunto dos demais imóveis tombados pelo patrimônio histórico, em razão de sua importância como elemento da arquitetura colonial portuguesa. Propriedade de uma das mais tradicionais famílias da sociedade pedrossegundense, os Mourão, o Solar da Estrela Marrom se insere na história da própria Pedro II, considerando ter sido cenário de um ataque de tropas do Governo, por motivos de rixas político-partidárias, cujos projéteis ocasionaram buracos que ficaram expostos por muito tempo à curiosidade popular.
Pois bem, essa vetusta moradia, poeticamente nomeada de Solar da Estrela Marrom, faz parte das minhas memórias de criança imaginativa, fantasiosa de aventuras — que histórias, quais mistérios, segredos, em seu recôndito íntimo reverberavam, naquele sodalício quase religioso, num silêncio que se percebia como a pairar, inconsútil?
Como um sonho que se materializa, eis que, certo dia, nos idos dos anos 60, meu pai, que gozava da amizade do Coronel e era o único agrimensor daquela cidade imperial, me leva à casa do poderoso e temido Coronel Mourão, a fim de tratar de assuntos atinentes à demarcação das muitas fazendas de sua propriedade, espalhadas pela vasta área rural do município serrano.
Estão nítidas as imagens captadas naquela visita extemporânea: em sua frente, debruçada sobre o já aludido logradouro público, sobressaíam seis janelões, separados por uma única porta de acesso ao interior, onde se seguia por um extenso corredor, em cujo centro existe uma bela porta de madeira, ricamente talhada em nobre madeira, com detalhes de arabescos, certamente obra de um primoroso artífice.
Ao deparar-se com ela, inusual, é como se tivesse escrito um aviso peremptório: “Siga, se autorizado!”
É exatamente nesse trajeto à intimidade do lar que, no piso secular de mosaico, sobressai o desenho especial, singular, de uma estrela: a famigerada “estrela marrom”.
Logo se adentra à sala principal, onde se destaca uma grande mesa que acomodaria, confortavelmente, umas doze pessoas. Nas paredes, os tradicionais retratos de ancestrais, sisudos, como a vigiar os que ali estivessem presentes, além da vistosa cristaleira, com sua prataria reluzente e, em destaque, sobre alta mesinha, o mais famoso rádio da cidade, pois que o primeiro e, por longo tempo, único existente naquelas bandas.
Outra curiosidade que me despertava atenção era o sótão existente e que, diz a lenda, era onde o Coronel guardava armas e munições para defesa de seu patrimônio — a esse não tive acesso; ficou só na vontade.
Quanto à pessoa, o Coronel Mourão tinha um porte franzino, estatura mediana, de fino trato, cavalheiro, diferentemente dos coronéis retratados nos romances de nossos escritores nordestinos da geração de trinta.
Por outro prisma, e pelo que o povo fala e a história local consigna, ele era um senhor poderoso, frio, imponente, de forte personalidade, líder político sagaz, matreiro. Seriam esses os adjetivos que espelhavam sua atuação, configuravam negociações bem urdidas no trato político.
Por último, tenho registrados, nítidos na memória, três elementos externos que o distinguiam dos cidadãos comuns que conheci então: uns óculos pince-nez, um relógio de ouro de algibeira e, destacadamente, uma bengala ricamente trabalhada, talvez de madrepérola.
Tal adereço complementava sua figura legendária: na voz dos mais antigos, seria uma arma disfarçada, pois seu interior escondia um longo punhal, afiadíssimo e envenenado, cujo fio, ao penetrar na pele humana, ocasionaria morte imediata ao ferido.

Eduardo Albuquerque, cronista
Praia de Muro Alto, 08/11/2024

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Inspiração

Minha inspiração nasceu das lembranças da infância em Pedro II e do fascínio pelo Solar da Estrela Marrom. A visita ao casarão, nos anos 1960, ficou marcada na memória. Décadas depois, senti necessidade de transformar aquelas recordações, histórias e lendas em narrativa, preservando também um fragmento da memória coletiva da cidade.

Sobre a obra

A obra é uma crônica memorialística, construída a partir da memória, da observação e da história oral. Reuni lembranças pessoais, descrição arquitetônica, personagens e lendas locais, buscando criar uma narrativa entre realidade e imaginário. O resultado nasceu da combinação entre memória afetiva, pesquisa de detalhes e linguagem literária.

Sobre o autor

Sou escritor, poeta e cronista, movido pela curiosidade, pela memória e pelo prazer de transformar experiências em palavras. Meu talento está, sobretudo, no olhar: perceber poesia no cotidiano, resgatar histórias e personagens e recriá-los pela linguagem, preservando a oralidade, a identidade e a memória de nossa gente.

Autor(a): EDUARDO RODRIGUES E ALBUQUERQUE (Eduardo Albuquerque)

APCEF/PE