Talentos Fenae/Apcef

Toda cidade tem seu doido

Toda cidade tem seu doido.

Prosaicos personagens costumam povoar os recônditos de nossa memória infanto-juvenil, quaisquer que sejam os logradouros interioranos desse Brasil velho-de-guerra, este, onde se plantando tudo dá, mal-falado por muitos, mas por poucos deveras abandonado; o isoneiro adora, parece ser de seu feitio dele reclamar, se queixar; no entanto, tal ossinho não quer largar, mesmo que a porca torça o rabo...continua, bissexto cronista, retorne ao assunto em tela, ou melhor, ao papel (tua sina idiossincrática ...eita!) como ia relatando, assim também se repete, ou não se diferenciam, a minha cidadinha onde nasci, adolescente permaneci, lá pras bandas do interior profundo do, muitas vezes, discriminado Piauí – digo de pé-firme, no chão: todo nosso Nordeste é igualzinho, meu irmão! povo sofrido, humilde, que da vida nunca desiste e, lamento, até porque lamentável o é, e de políticos de índole duvidosa, pra ser comedido, hein, sempre se dando bem com seus artimanhas ancestrais (e como adoram eleições, afinal, suas profissões! Nem uma se acaba, já tão maquinando a próxima!).
Meus pinçados leitores, a
“Terra querida
Filha do Sol do Equador
Pertencem-te a nossa vida
Nosso sonho, nosso amor!
As águas do Parnaíba
Rio abaixo, rio arriba
Espalham pelos sertões...”
e por aí vai, como se nos revela seu hino, deduzo que o Da Costa e Silva, poeta-raiz se inspirou, em parte, no calor, tipicidade das bandas do lado de lá.
Mais o assunto do escrevinhador escorregadio é, agora vai, aquele ser humano diferenciado, ao qual o populacho, escrachado ou não, intitula de “sem juízo, maluco, transloucado, doido, doido varrido” e que tais, enfim o nosso mais característico, pois que nunca existe só um, era lá conhecido, apelidado, carimbado de ZÉ DOIDO, um sujeito bem apessoado, olhos azuis, altura mediana, meia idade, sorriso no rosto, natureza pacata, resumo, um cara calmo, diria hoje, legal; sua vestimenta usual, se destacava por mais parecer um paletó que uma camisa comum – cinza, quatro bolsos externos, dois tradicionais, os demais, simétricos, à altura do umbigo, tecido cáqui; protegia-lhe (?) o juízo um chapéu-coco, acinzentado, ei-lo fisicamente descrito. Se família ele tinha, aonde morava, ninguém asseverava, disso nada se conhecia. Bem, tal diferente cidadão era um sujeito manso, aparecia de supetão na urbe, bem acolhido pelas famílias locais e aos adultos, homens/mulheres a todos chamava, invariavelmente, padim/madinha e sempre os presenteava com as frutas comuns da região: mangas, goiabas, laranjas, etc., como se fora uma voluntária cortesia.
Agora, abnegados leitores, tudo ficava de ponta-cabeça quando a molecada (eu estou fora dessa, tá) o via, e era geralmente naqueles meios-dias, de sol a pino, famílias na rotina das sestas, ruas desertas, comércio fechado, casas de portas trameladas, a aludida, malina gurizada, nada tendo a fazer, montava campina atrás das árvores da Praça Velha, ou da Praça Nova, a da Matriz de N.S. da Conceição ou, por vezes, escondida nas esquinas; eis que se iniciava o calvário do inesquecível Zé – começavam os assobios, agudos, recorrentes, imitando o cupido (assim graúna conhecida, ave muito comum naquelas brenhas) e a berrar, a plenos pulmões : cupido, hei cuuppiiddoo!! Cadê o Zé Doido, hei Zééé Dooiiddo!!
AÍ, tolerante leitor, o homem até então na dele, virava onça braba, cavalo selvagem, preá-de-baixio, o diabo chutando manga azeda! Ele xingava (filhos duma égua, felas da p... ) e corria desabaladamente, jogando pedras, o que encontrasse à mão, até o cansaço lhe chegar, a exaustão física e psicológica o empurrar para as matas que circundavam a minha terrinha natal, desaparecendo, então, por dias, semanas.
Ainda na cidadinha de onde estou exilado, uma mulher jovem, bonita, morena e que, como lá se dizia, também perdera o juízo... oxê, insistente cronista, isso é outra história, fica pra depois, cuidado pro estoque não se findar, poupe seus alfarrábios! Inté!

Eduardo Albuquerque
Recife, 27/08/2024.

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Inspiração

A crônica une memória, oralidade e humor regional para humanizar Zé Doido e criticar a violência contra quem a cidade reduz a um apelido.

Sobre a obra

Transformei uma lembrança do interior em crônica social. Usei oralidade, regionalismos e imagens populares para criar ritmo e identidade. O contraste entre a figura pacata de Zé Doido e a crueldade infantil conduz à reflexão sobre preconceito e humanidade.

Sobre o autor

Como cronista atento às vozes do interior e às histórias que o cotidiano esconde, busco transformar memória, oralidade, humor e critica social em narrativas humanas, marcadas pela identidade nordestina.

Autor(a): EDUARDO RODRIGUES E ALBUQUERQUE (Eduardo Albuquerque)

APCEF/PE


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