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SAO PAULO CAPITAL NACIONAL DA SAUDADE
SÃO PAULO, CAPITAL NACIONAL DA SAUDADES (Revisitada)
Meus lábios quietos agora testemunham
o crepúsculo dos samurais
e a silenciosa queda dos mitos ocidentais.
Tudo finda e começa
- de repente –
No interior das avenidas.
Meus olhos
Quais vitrinas
Lançam sombras nas calçadas
Onde ela andará
E nenhuma rua me conduz à sua casa
Todas as ruas agora são iguais:
Monótonas, fatais, abismos de gente,
Bueiros, camas de indigentes, letreiros,
Sisudas meninas, carros, sinais, (perigoso avançar)
VERDE ... VERMELHO... VERDE... VERMELHO...
Minhas pernas e meus joelhos
Doem
A folha pálida
Amassada no bolso da calça
- parece que machuquei
um
P ´ SSARO -
A poesia
Inútil rosa presa entre os dentes
E sou mais uma presa útil
Desta cidade
E árvore em frente parece coisa fútil.
Meu dedo, como um fuzil,
aponta uma frase qualquer
escrita num muro qualquer.
Nesse instante
Vem-me à mente uma imagem:
- Os bruxos também amam –
E brilha nos meus lábios
A morna vastidão dos seus lábios
Por onde ela andará?
VERDE ... VERMELHO... VERDE... VERMELHO...
Luzes, prédios, bancos, praças de concreto
A vida suspensa por um fio, um decreto,
É difícil viver com tais desafetos
e as roupas penduradas nas janelas
são carências mal lavadas
que se acumulam todos os dias
como jornais que não lemos mais
Mas ainda se percebe algum esboço de vida
No rosto de quem passa
Apesar de alguns parecerem tão boçais
Em baixo, dentro, ou longe dos aviões comerciais
E a esperança continua sendo
relíquia terminal.
Indago, com meu ego embolado,
Em que bonde do desejo se viu a deusa Vênus
Acenando os seios fellinianos à multidão?
Os túneis parecem antecâmaras do nada...
Por onde ela andará?
VERDE ... VERMELHO... VERDE... VERMELHO...
Carros, carros e mais carros, sanduíches de pesadelos
ingeridos com garoa, água e sal
faz tanto frio que os prédios parecem estar rachados
e já não acho mais praças para o primeiro de maio
e o inconsciente é uma carta escondida na manga
um poema guardado na gaveta
vou publicá-lo e...
pronto, estarei quite com a minha infância
os letreiros de neon lembram-me as estrelas
que pai mostrava da exígua janela
do conjugado onde morava
talvez tenha sido por isso que me tornei poeta
uma seta rasgando os ossos de meu mundo
estou cheio de viagens e bagagens
povoar as estâncias de desejo e liberdade
por caminhos, por cidades e paragens.
VERDE ... VERMELHO... VERDE... VERMELHO...
Por onde andará
A minha hidra de desejos
Dona das colunas do meu templo
Senhora absoluta dos meus reinos e carinhos?
- Ah, esse lirismo devasso que ainda me encadeia -
Mas meu corpo todo é uma lenha que teima
e queima e queima e não se acaba nunca!
Deve ser por isso que quando dela lembro
Vejo a lua envolta em chamas
VERDE ... VERMELHO... VERDE... VERMELHO...
Estou de volta à sala onde trabalho
A mesa cheia, as pessoas cheias,
De que meu Deus? De quase nada!
Sento-me, ergo a minha caneta
(dá vontade de expelir com tudo isso!)
Nesse País que a mentira virou verdade
E a verdade virou mentira
Uma frase sussurra pausada
Suave como um glacê:
- São Paulo, capital nacional da saudade,
Por onde ela anda?
Por onde anda você?
Inspiração
A Cidade, o espaço urbano, a procura, a saudade, não só de um amor, mas da infância, do humano em nós, o caótico captado pelas lentes do poeta, a critica politica e social de uma cidade do "corre" desumano.
Sobre a obra
Minha obra nasce da cidade e do espaço urbano, da busca e da saudade — não apenas de um amor, mas também da infância e da essência humana. Procuro capturar o caos cotidiano pelas lentes do poeta, incorporando uma crítica sensível e reflexiva à realidade política e social de uma cidade em constante movimento.
Sobre o autor
Meu talento poético está na capacidade de fazer da cidade uma experiência íntima: transformar trânsito, concreto, garoa e ruína social em imagens de desejo, memória e vertigem. Minha fala combina lirismo, crítica e estranhamento, com ritmo próprio e imagens que continuam reverberando após a leitura. É uma poesia urbana, pulsante, melancólica.
Autor(a): ORLANDO PEREIRA COELHO FILHO (ORLANDO COELHO FILHO)
APCEF/MG
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