OS MÍSSEIS

OS MÍSSEIS

Os mísseis estão chegando
Mil? Seis?
Broquéis de mil-réis.
Nisseis contam seus níqueis.
Estavam em paz, naquela vez.
E nesta, talvez.
Contando e contando e contando
As favas que não plantei,
Os dados que não rolei.
Para onde foram os pirilampos?
E os tatuís que faziam cócegas
Nas palmas das mãos dos guris?
E os mísseis, às cegas,
Brilhantes como rubis,
Chovendo sem regras.
Ó, com quais lágrimas regas
Os pequenos crânios infantis
Que brotam dos escombros,
Roxos como ocos cantis?
E vêm os mísseis aos cachos,
Escrachos dos tempos atuais,
Digitais, sutis, fatais
Fogo em alfombras e capachos.
Entre dentes, ralos, raros risos,
De ridentes, só mesmo os mísseis:
A morte sorrindo com seus fogos
De artifício.
Fim dos legos e do logos.
Ah, os probos.
Amam as meninas,
Profanam-lhes o corpo,
Estuporam-lhes a infância
Com seus mísseis
Missionários, ordinários do nada.
Estão chegando os mísseis.
Não vêm sós: reluzem como sóis,
Reduzem tudo a pó.
Vem uma nuvem espessa
E logo uma chuva gris.
Esquece qualquer arco-íris:
Carteira, cadeira, lousa ou giz,
Idades escolares,
Primeiro amor, preliminares.
Quem manda nos céus de agora,
Vindo pelos ares,
Anti-fogos de artifício,
Degola edifícios,
Gentes e povos,
Velhos e novos:
Mísseis, mísseis, mísseis,
Os noivos das nuvens,
De novo e de novo e de novo

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Inspiração

A inspiração surge da guerra vista como absurdo contemporâneo: tecnologias que chegam “brilhantes” e apagam infâncias, casas e futuros. O poema transforma a indignação diante dos conflitos e das vítimas civis, sobretudo crianças, em ritmo, ironia e imagens de devastação

Sobre a obra

Os Mísseis” é um poema de denúncia contra a violência da guerra. Pela repetição obsessiva, pelas rimas e pelo contraste entre objetos da infância e cenas de destruição, a obra mostra como a guerra invade o cotidiano e converte vidas, memórias e sonhos em escombros

Sobre o autor

Sou, também, um poeta atento às feridas do presente, consigo unir indignação social e sensibilidade lírica. Minha escrita percebe a violência onde muitos se acostumam a vê-la e a devolve em imagens intensas, sonoras e humanas, sem abandonar a compaixão pelas vítimas

Autor(a): ORLANDO PEREIRA COELHO FILHO (ORLANDO COELHO FILHO)

APCEF/MG


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