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JARDIM DE DIONEIAS
DIONÉIAS (DAS FLORES QUE NÃO LHE DEI – 1ª ESTAÇÃO)
Há um jardim de Dionéias de bocas abertas dormindo. As dores das lembranças fustigam antes dos sonhos. Algumas vezes elas chovem, estiletes brilhantes, estalactites de diamantes. Aprende-se com elas: a tristeza é um barco de papel branquíssimo abandonado na poça da chuva acinzentada. Naquela árvore que levantou o piso da calçada com suas raízes: Carentes e perdidos, exilados e banidos, malditos e proscritos, Abraçaram-se como se fossem aquelas raízes
Procurando um pouco de sol, de ar, de céu anis. Um beijo abriria as crostas do peito deles, os corações em busca de ar, Estufariam até que suas aortas brotassem como hortas, Tal como as raízes. As bocas, os lábios, as salivas como saúvas Em uma salva de picadas na nuca das folhas caducas.
As línguas se procurariam como essas saúvas. O desejo abole toda a hipocrisia de normas e valores. Uma esquina, uma árvore, um pedaço de calçada estufada,
Algumas raízes, como dedos crispados, e uma estação de bolores de amores conservados no fundo das gavetas com naftalinas e retratos e canetas que nunca mais escreveriam coisa alguma. Esta noite, esta árvore, este piso levantado como um açude, Como uma nuvem envolvendo os pés de Dionísio e de Diana,
Fariam os medos abolidos, rosas e medos anabolizados, bólidos medos, anêmicos e os tardios. Como se estivessem no cio, como se o rocio fosse um canto para eles, como se o rio só fluísse para eles e os fundisse como se fossem uma terceira margem desse rio...
Lá do Largo dos Guimarães, em Santa Teresa, a paixão volta com seus volts a estampar os seus sussurros de grafite nos ouvidos arrepiados dos muros.
Se ele se estufaria como uma tenda no deserto, ela logo se abriria como um oásis... Mas sobreveio a terrível noite, veio em seu velho veio de sal e veio um anjo do inferno que, com olhos de açoites, plantou o jardim do azougue...
As Dionéias, mais tarde, devorariam vorazes quaisquer saudades...
Inspiração
A inspiração brotou da união entre a natureza urbana de Santa Teresa e o desejo amoroso. Raízes, plantas carnívoras, chuva e calçada tornam-se metáforas de lembranças, carências e paixões que, mesmo reprimidas, encontram força para romper a superfície e voltar a devorar saudades.
Sobre a obra
É uma prosa poética sobre memória, desejo e perda. A narrativa transforma um encontro amoroso em paisagem viva: raízes, bocas, formigas, flores e chuva se confundem com corpos e afetos. No fim, a paixão retorna como força voraz, capaz de consumir as saudades
Sobre o autor
Aqui revelo-me um escritor de elaboração imagética. O talento está em criar associações inesperadas entre corpo, natureza e cidade, fazendo a linguagem pulsar como desejo. Escrevo com musicalidade, intensidade sensorial e uma sensibilidade capaz de tornar a dor profundamente visual.
Autor(a): ORLANDO PEREIRA COELHO FILHO (ORLANDO COELHO FILHO)
APCEF/MG
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