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O RELOGIO DO TEMPO PERDIDO
O RELÓGIO DO TEMPO PERDIDO
Carla Gomes Kruger
Na parede da casa da vovó, um antigo relógio de madeira cuco marcava as horas com um canto metálico e insistente. Para nós, crianças, aquele som era parte da casa, assim como o cheiro de café coado, a sopa de pêssego ou carambolas colhidos no quintal enorme. e as toalhinhas de crochê e bordados espalhados pelos móveis. Na estante da sala alguns prêmios recebidos como vendedora de Avon. A cristaleira de madeira e espelhos exibia a coleção de louças de porcelana fina, objetos que só saiam dali para limpeza, nunca para serem usados, principalmente por crianças afoitas. O tempo ali parecia se mover devagar, como se a infância fosse um lugar eterno.
Naquela parede da sala, o relógio marcava um tempo que ninguém sabia ao certo se era o presente ou o passado. Os ponteiros, lentos e teimosos, giravam hesitantes em seguir adiante, como se carregassem o peso de todas as horas desperdiçadas ali, naquele cômodo onde ninguém mais parava para olhar.
Foi minha avó quem o trouxe para casa, décadas atrás, quando ainda acreditava que o tempo se media pelos batimentos do coração e não pelas notificações do celular. “Um bom relógio faz a gente lembrar que está vivo”, ela dizia, ajustando os ponteiros com os dedos, sem pressa, como se esticasse o próprio tempo.
Mas algo sempre me intrigou naquele relógio. Não eram as badaladas, sempre ligeiramente fora do compasso, nem o tic-tac abafado que parecia um coração cansado. Mas não sabia ao certo o que poderia ser, já que naquela época não sabia ler as horas, apreciava apenas a beleza do relógio e o barulho do cuco. Mas a sensação era de que ele roubava mais do que marcava.
Talvez tenha sido impressão, mas juro que, quando eu era criança, os dias pareciam durar mais. As tardes de brincadeiras no quintal eram intermináveis, o verão se arrastava, e os invernos demoravam a passar. Hoje, o tempo escorre pelos dedos como areia fina. O relógio, sempre no mesmo lugar, parece me encarar, zombando da minha pressa, do meu cansaço, da minha tentativa inútil de controlá-lo.
Um dia, na juventude, visitando a casa da avó, percebi que os ponteiros giravam para trás. Fiquei olhando por um longo tempo, hipnotizada. Minutos retrocedendo, como se fosse possível recuperar o que já foi.
Quando voltamos adultos, a casa já não era a mesma. O teto parecia mais baixo, os cômodos menores, os corredores estreitos. Talvez tivéssemos crescido demais ou, quem sabe, o tempo tivesse encolhido as lembranças. Naquele dia, a vovó partiu, e o relógio silenciou. E, com ele, por um segundo, tive a estranha impressão de que tudo ao redor ficou suspenso. O silêncio era absoluto. O tempo tinha se cansado de ser contado.
Meu irmão quis levar o cuco como lembrança. Comprou-o de nossa tia e o pendurou na parede de sua casa, esperando ouvir novamente o canto ritmado da infância. Mas o relógio nunca mais funcionou. Seus ponteiros permaneceram imóveis, como se recusassem a marcar um tempo que já não existia.
A madeira começou a se desgastar, e as traças devoraram o que restava. Aos poucos, o cuco virou apenas um pedaço do passado consumido pelo presente.
Hoje, penso que talvez o relógio nunca tenha sido feito para durar além da vovó. Seu tempo não era medido em horas, mas em memórias, e estas, quando não alimentadas, se perdem, como o cuco que um dia cantou e depois se calou para sempre.
Inspiração
Há uns dois anos comecei a escrever memórias de episódios da minha infância e adolescência como forma de enfrentar alguns lutos e esse texto nasceu dessas lembranças. A literatura me ajudou e ainda me ajuda muito no processo de travessia de situações complicadas da vida e me abriu o horizonte de ressignificações.
Sobre a obra
Essa crônica reflexiva faz parte de um acervo memorialístico onde utilizo o relógio como símbolo do tempo, da infância e da memória afetiva. Utilizo da descrição sensorial e o contraste entre o passado e o presente construindo uma atmosfera nostálgica.
Sobre o autor
Sou funcionária da Caixa há 20 anos e somente nos dois últimos comecei escrever e participar do Talentos. Iniciei a minha escrita como ferramenta de terapia e desenvolvi o gosto de escrever poemas, contos (micro e nanocontos) e crônicas, tenho acumulado algumas participações em antologias desses gêneros literários.
Autor(a): CARLA GOMES KRUGER (Carla Gomes Kruger)
APCEF/RO
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