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Yemanjá, o Chamado das Águas Eternas Yemanjá, o Chamado das Águas Eternas

Yemanjá, o Chamado das Águas Eternas

A Grande Senhora das Águas mora em um palácio seguro, tranquilo e em paz. Dizem os mais velhos — e ninguém jamais conseguiu provar o contrário — que, antes mesmo do sol nascer naquele fevereiro, o mar já sabia que Lia voltaria.
Naquela manhã, porém, Lia ainda não sabia. Ela cantarolava desde cedo, como quem carrega uma música que não começou na própria boca: A morada de mamãe é debaixo d’água... Cantava para Dona Janaína, para Kayala, para Yemanjá — como se cada nome fosse uma porta e todas levassem ao mesmo lugar. Mas, naquele dia, havia uma ruptura no canto. Uma pausa breve, quase invisível, como se algo dentro dela ti vesse se deslocado. O dia mal rompera nas Águas de Oxalá quando Maria já estava nas pedras do rio, lavando roupa de ganho. O sabão escorria entre seus dedos como quem conhece o caminho da fuga.
— Ei, cumadi, não cansa não?
— Cansar de quê, muié? É como a gente quer.
Disse sem olhar, torcendo o pano com a firmeza de quem torce o destino.
— Tenho dois filhos pra criar... e aquele homem que virou ausência.
Ficar esperando o quê? O rio fazer volta?
Cuspiu de lado e continuou, sem dar espaço ao silêncio:
— Agora sou eu e eu mesma.
Depois, como quem finca palavra no chão:
— E não tem fevereiro, nem lua cheia, que me faça ir pras águas.
Quem ouviu, não acreditou. Porque Lia era filha de Yemanjá. E filha de Yemanjá não se afasta — apenas demora.
— Tu endoidou, foi? — disse Ana, rindo sem coragem.
— Endoidei, não. Cansei!
E havia verdade ali. Dura, espessa, dessas que pesam no corpo.
— Esse povo pensa que a gente é de ferro. É obrigação atrás de obrigação. Pois eu não vou!
E repetiu, como quem tenta convencer o próprio destino:
— Não vou. Não vou. Não vou.

Foi nesse instante que a história deixou de ser apenas de gente. Porque, segundo a avó — e avó não mente quando fala de água —, Yemanjá é Senhora de muitos espelhos. E espelho não serve apenas para refletir. Serve para chamar. Dizem que ela nunca enfrenta. Contorna. Como o rio que se curva inúmeras vezes antes de alcançar o mar. Mas, quando chega a hora, espalha espelhos pelo mundo. E, em cada um deles, deixa algo que não pode ser recusado.
Com Lia, começou em silêncio. Na primeira noite, sonhou com água. Na segunda, com vento salgado. Na terceira, acordou com os pés molhados. Ninguém soube explicar de onde vinha aquela umidade. O mar não chama com voz. Chama com memória. Ainda assim, Lia insistia. Permanecia nas pedras do rio, agarrada à própria recusa como quem tenta conter o inevitável.
Mas há forças que não se enfrentam. Apenas retornam. O mar tem gostos que não se esquecem: o sal da saudade, o doce do lar, o amargo breve das perdas e o morno — quase sagrado — do colo de mãe. Quem prova, carrega. Mesmo quando tenta esquecer.
Foi então que Lia começou a se ver. Não nos espelhos da casa, mas nas águas. Na superfície do rio, no brilho dos utensílios, nos olhos dos outros. E, em cada reflexo, havia algo além dela: Uma mulher vestida de branco. Imóvel. Esperando. Não demorou. Porque ninguém foge do mar para sempre. No dia 02 de fevereiro, antes mesmo dos primeiros rojões, o vento já trazia cheiro de alfazema. Cumpadi Roque seguia à frente, adjá na mão, abrindo caminho entre o visível e o invisível. O cortejo crescia atrás dele como maré cheia. E então, todos viram: Lia de Yemanjá de balaio na cabeça, coberta de flores, pano da costa firme ao corpo, o alaká aberto como asas. Não havia hesitação. Ela não tinha ido. Ela havia sido chamada. Subiu no saveiro sem olhar para trás. E dizem — embora ninguém jure com certeza — que, naquele instante, o mar se abriu em silêncio, como quem reconhece o que sempre lhe pertenceu.
— Vó... e foi assim mesmo?
— Foi, meu fio. E, depois de um tempo, completou:
— Quem tem santo não se governa.
E há ainda quem diga — mas isso já pertence ao território das águas — que, quando Lia tocou o mar, não foi ela que entrou nele. Foi o mar que voltou para ela.
Odoyá! Odoyá!
Oh! Doce Yabá.
Pois é, Quem tem santo não se governa: o chamado do sagrado sempre encontra quem lhe pertence."

Carlos Alberto Araújo dos Santos – Egbón Alábójí – Itans que conto e reconto

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Inspiração

A inspiração nasceu da força dos mitos afro-brasileiros e da tradição oral que mostra Yemanjá como mãe e guia. A história de Lia reflete o chamado inevitável do sagrado e a relação profunda entre destino e ancestralidade.

Sobre a obra

A obra une narrativa literária e mito, revelando como o mar e Yemanjá se tornam espelhos da vida. É um conto que fala de resistência, recusa e, por fim, aceitação do chamado espiritual, mostrando que ninguém foge de sua essência.
Busco aprender com a tradição e a ancestralidade. O conto reafirma que o sagrado é um retorno inevitável da alma.

Sobre o autor

Sou Aláboji, cabeça de Oxalufã, divindade da luz, da paz e do amor, o Ancião. Sou Mestre Tradicional de Povos e Comunidades de Terreiros e de Matriz Africana, Griô/Djie (contador e guardião das memórias, histórias e lendas do povo Ijexá). Busco aprender com a tradição, refletir sobre os extremos e transformar a dor em consciência.

Autor(a): CARLOS ALBERTO ARAUJO DOS SANTOS (CARLOS ALBERTO ARAÚJO DOS SANTOS - EGBÓN ALABÓJÍ)

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