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O oleiro do orún, Adjlá o modelador de cabeças.

O Oleiro do Òrun: Adjalá, o Modelador de Cabeças
Contam as mais velhas e os mais velhos — aqueles que aprenderam a escutar o silêncio entre um toque de atabaque e outro — que houve um tempo em que o destino ainda era fresco, úmido e podia ser moldado com as mãos. Nesse tempo, no alto do Òrun, vivia Adjalá, o Oleiro Divino.
Dizem que ele descia até as entranhas da terra celeste e, com as próprias mãos, arrancava o barro escondido nos beirais do invisível. Seus dedos, curvados como raízes antigas, cavavam a argila branca, retirando dela pedaços vivos, como se cada naco já guardasse um sopro de existência. Ele não tinha pressa. Nunca teve. Pois sabia que o tempo, quando bem tratado, tornava-se matéria de criação.
Levava então os pedaços de barro à sua olaria, um lugar que cheirava a chuva antes de cair e a folhas amassadas ao amanhecer. Ali, peneirava, amassava e deixava o barro descansar. Cobria tudo com um longo alá branco, como quem cobre um segredo sagrado, e deixava o tempo agir.
E o barro dormia. Dormia um sono profundo, como o sono daqueles que ainda não nasceram. Curtia em silêncio, maturando-se por dentro, até atingir o ponto exato — aquele instante invisível em que a matéria aceita o destino.
Quando chegava esse momento, Adjalá dividia o barro em várias porções. Cada uma única, cada uma diferente, como se já carregasse uma história que ainda não havia sido vivida. Uma a uma, colocava-as sobre a roda. E então começava o milagre. Com movimentos circulares, firmes e delicados, suas mãos trabalhavam o barro de dentro para fora. Em poucos instantes, as formas surgiam: cabeças (orís), morada do destino.
Algumas lisas, outras com pequenas imperfeições; algumas altivas, outras inclinadas, como quem já nascia carregando perguntas. Mas Adjalá, apesar de divino, também conhecia o cansaço. Às vezes cochilava. Entre uma cabeça e outra, seus olhos pesavam, e suas mãos desaceleravam. O barro, nesse intervalo, guardava o que podia — ou o que escapava. Assim nasciam cabeças de toda sorte: fortes, frágeis, equilibradas, tortas, luminosas ou densas como nuvens carregadas.
Ao despertar, ele não corrigia. Apenas seguia. Colocava cada Ori sobre prateleiras forradas com folhas de bananeira, à sombra e ao vento, deixando que o ar tocasse o que fora moldado. Depois, levava tudo à fornalha.
E ali, diziam os antigos, era onde o mundo acontecia. O vento do Oriente soprava — trazendo o que ainda estava por vir — e alimentava o fogo. As brasas estalavam como segredos sendo revelados, e línguas vermelhas subiam, lambendo o interior do forno. Quanto mais o calor crescia, mais o barro se transformava. Mais cabeça, mais destino, mais vida.
O sol brilhava sobre o morro do Òrun, e os Orís ganhavam resistência. Ar, água, terra e fogo — todos participavam do ritual. Purificavam, endureciam, selavam aquilo que, um dia, seria pensamento, escolha, caminho.
Quando tudo terminava, Adjalá observava em silêncio. Cabeça por cabeça, admirava o resultado do seu trabalho. Não julgava. Não comparava. Apenas reconhecia: ali estavam, decididos. A escolha vinha depois.
Aqueles que ainda não tinham descido ao Àiyé se aproximavam, ajoelhavam-se e escolhiam seu próprio Ori. Sem saber exatamente o que levavam, mas sentindo — no fundo do que ainda não era corpo — que ali estava seu caminho. Ao tocar a cabeça escolhida, caíam em um sono profundo.
O sono do esquecimento.
Desciam. E renasciam. Carne, ossos, hábitos, manias, cheiros, defeitos. Emi, ara, bara, orixá, axé e ori. Tudo misturado no milagre cotidiano da existência.
Por isso, ensinavam os antigos, com a voz baixa e firme: — Não cabe a Adjalá cuidar do seu destino depois da escolha. Cabe a você não deixar seu Ori trincar.
E nos terreiros, entre o som do agogô e o sopro do vento nas folhas, ainda se ouve, às vezes, como um eco antigo que atravessa os tempos, o orin ancestral em louvação ao Oleiro do Òrun: Awurê, waurê bó kún sùré Adjalá…
Como um chamado, ou talvez um lembrete: de que, em algum lugar entre o barro e o fogo, cada vida continua sendo moldada.
Adjalá Busí Fún Wá!
Pois é, “ . . . cada vida é barro moldado: cabe a nós cuidar para que o Ori não se quebre."

Egbón Alábójí. Itan que conto e reconto.

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Inspiração

A inspiração vem da tradição oral iorubá e dos mitos que explicam a origem do destino humano. O conto nasce da imagem de Adjalá como oleiro divino, moldando cabeças (Orís) e revelando que cada vida é barro sagrado em processo de criação.

Sobre a obra

A obra é uma narrativa mítica que une poesia e ensinamento. Mostra como o barro, o fogo e o sopro divino se transformam em destino, ressaltando que a escolha do Ori é individual e que cabe a cada pessoa cuidar para que ele não se quebre.

Sobre o autor

Aláboji é cabeça de Oxalufã, Mestre Tradicional de Povos e Comunidades de Terreiros e de Matriz Africana, Griô/Djie — guardião das memórias, histórias e lendas do povo Ijexá. Seu trabalho busca aprender com a tradição, refletir sobre os extremos e transformar dor em consciência, preservando e transmitindo saberes ancestrais.

Autor(a): CARLOS ALBERTO ARAUJO DOS SANTOS (CARLOS ALBERTO ARAÚJO DOS SANTOS - Egbón Alábójí)

APCEF/BA