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Uma História que não silencia - O Testamento

Uma História que não silencia – O testamento

Uma flor vermelha entre os dedos, estou indo para o seio de onde vim.

Vou pra junto dos meus, os verdadeiros donos desta terra, minha miscigenação heróica e historicamente negada de índios e negros. Reatarei junto a eles, a saudosa magia da noite, tipo aquelas infindáveis noites, em que trabalhei horas a fio, madrugada a dentro, como se dia fosse. A grande matriarca, a dona da história. Resistência é meu nome.

Mas não só. Dialoguei, divaguei, visitei. Debati, briguei, discordei... Política não é assunto só pra homens. Exercitei a paciência, saber ouvir, sobretudo os mais jovens. O novo sempre me instigou, a cumplicidade é uma troca, o respeito se conquista. Por certo não compreendesse bem a condição de mulher que a vida me impôs, aprendi a conviver com o poder masculino na história, a cor da pele que se diferia, mas, no meu habitat, demarquei com unhas e dentes o meu direito de escolha.

Avançar os limites do que está dado tem seu preço. Não tardei a perceber a dureza da vida, o valor de cada sim, o peso de cada não e a potência da minha voz. Professei como regra a necessidade de me impor, disputar o tom de voz, garantir o meu lugar. Trabalhei demais, exigências me fiz, mas tive força, herdei de meu povo a luta, minha raça, minha história, meu sangue.

Vermelha como um carma, essa flor que levo comigo, estandarte de vida e resistência, que a história insiste em não contar. Vozes silenciadas... como sei! A antiga fábula das "rainhas do lar". Verdades sonegadas, presenças ignoradas.

Triste país de uma História sem lastro.

Mas tive lastro e o Encantado me fincou raiz: fui feliz, falei muito, em alto e bom tom. Gargalhei, varei noites em frutíferas prosas, fiz festa, enchi salões. Dancei. Não a dança dos meus, essa não tive chance de aprender. No entanto, a história me ensinou outras coisas. Reafirmei a liberdade, a ousadia, aprendi a apontar caminhos, soube medir o preço de cada decisão atrevida.

Abri janelas e descobri: muitas delas, não basta olhar. É pra se transpor. Pois que seja! Avancei por algumas. Outras tantas, alguém o fará por mim, em meu nome, a partir de mim.

Há muito já me sentei e sei que o tempo histórico está na minha digital, nos calos da minha mão e no branco dos meus cabelos. Aprendi com os meus a sabedoria pra depois da luta, não lamentar o recolhimento, jamais o recusei. Dobrei os joelhos, mas nunca a espinha. Sempre altiva, de frente. Tenho ciência desse tempo que vicejo e prenhe dele me refiz.

Sentar-se não é ceder. Eu estou!

E esperei: coluna erguida, abastecida, pacificada. Exercitei a paciência necessária de cada dia, dando ao tempo todo o tempo que ele não me cobrou. Fiz parte dele e compreendi: o tempo, despido de gente, liberto, desobediente, é a mais pura vida em prenuncio de contemplação.

Contemporizei com o tempo. A ele me inseri, absorvi, pactuei.

Tempo me tornei.

Estou indo para o colo dos afetos, eu e minha flor vermelha, meu amuleto e minha presença, vestida de flores, encantada da vida. As cicatrizes, os silêncios e os combates assumidos por mim, as alegrias e promessas em meu nome, os sonhos que despertei, a memória dos pactos que refiz, o futuro que selei.

À luta sempre! Foi assim que sempre quis.

Ouço rumores, tambores, há uma música a me esperar. Serei bem-vinda, estarei entre os meus, o seio de onde vim, pedaços de mim. Um ciclo que não fecha, enraizado que está, em cada um de novos eus, testemunhos de mim.

Atesto, portanto, os horizontes que abri. Eu os deixo aos meus.

Minha história não silencia. Vicejar é minha lei.

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Inspiração

Gosto de homenagear meus antepassados, no caso aqui, minha vó, com uma história belíssima, forte e digna de registro. É um modo de manter viva sua memória e de agradecer o aprendizado, as portas abertas, essa herança da qual muito me orgulho

Sobre a obra

Descrevê-la foi prazeroso e comovente já que revistei minha infância, minha juventude, a vida adulta. Pude reverenciar,
agradecer e mais que isso, tive a chance de medir e compreender o peso de sua presença em minha formação como mulher e cidadã

Sobre o autor

Gosto muito de fotografar, diminuir o olhar para os detalhes, entrar em determinado espaço, dialogar com ele e seus objetos, trocando entre nós, um diálogo, e uma dose de pertencimento

Autor(a): ANGELA MARIA FASSINA BARONE THEBALDI (angela barone)

APCEF/ES