Extremo canto de paz

Extremo canto de paz

Estes tempos bicudos,
como falou Quintana,
o verso que nos irmana,
e que traz o conteúdo.
É o mundo que desnudo,
com encanto da poesia,
refazendo esta alquimia,
nas ruas da resistência.
Temos plena consciência…
A luta glorifica os dias.

Distante os anos de chumbo,
tão perto os anos extremos.
Campo minado que temos,
em teclas afora pelo mundo.
Mil cliques num segundo,
aciona a caneta da tirania,
o avalista da supremacia,
soturno arrebol da clausura,
num horizonte de ditadura,
aceno de adeus à democracia.

São claras as evidências,
no gesto de quem comanda,
com tamanha propaganda,
na balança da prepotência,
e quando bate continência,
vibra a voz da cidadania,
velhas loucuras de utopia,
nos encontros e passeatas,
gastamos as alpargatas,
para extravasar a rebeldia.

Na onda do preconceito,
o aparte cruel do racismo,
em nome de um civismo,
– ou das trevas que espreito –,
são as forças do conceito,
que alteram a biografia,
e profanam a vã filosofia,
do clamor que vem das ruas,
das devotas orações cruas,
no esteio da fé em romaria.

Bradamos… Diretas, Já!
Num passado consequente,
Renasce a alma do vivente,
tanto aqui… como acolá.
E lhes garanto que há,
andejos vivos de alforria,
nas vontades de periferia,
nesta querência Americana,
carregamos a honra aragana,
que cantamos em sintonia.

Os muros na caminhada,
invocam apuros na liberdade,
dentro da falsa verdade,
como polvadeira na estrada.
Para migrar nesta jornada,
pelos caminhos da ousadia,
é longa e larga a travessia,
para uma vivência melhor,
sem lágrimas, sangue e suor,
e deixar lejos a vida vazia.

Excede o mito artificial,
que vaga no pago infinito,
na tela verde do conflito,
a marca desta Era virtual.
Esta é a batalha digital,
que confunde a ideologia,
encampa a pampa geografia,
impõe aramados e cancelas,
estreita as portas e janelas…
Olhares tristes de teimosia.

Na pena sinto um poema,
nos escaninhos da guerra,
mundial campo que encerra,
a tragédia que encena,
a nossa miséria terrena.
Léguas de prantos e covardia,
extrema dor que esvazia,
o cerne fim do pensamento,
Faltam palavras de alento…
Aconchego, paz e calmaria.

Para prosseguir nesta trilha,
um abrigo no sol-nascente,
passos firmes de sobrevivente,
que traz, sem rumo, a família,
Pai... mãe... sobrinho e filha…
E um rancho para moradia.
Préstimos de canto e euforia,
são errantes em campo aberto,
migrantes em vasto deserto,
herdeiros de vento… e ventania.

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Inspiração

O poema apresenta-se como uma reflexão lírica e crítica sobre os conflitos políticos, sociais e humanos do mundo contemporâneo. A composição articula passado e presente ao aproximar os “anos de chumbo” dos “anos extremos”.

Sobre a obra

Estruturado em oito décimas espinelas, o texto percorre temas como a ameaça à democracia, o autoritarismo, o racismo, o preconceito, a guerra, a migração e a resistência popular.

Sobre o autor

Nascido em Santiago, Athos Ronaldo Miralha da Cunha é graduado em Engenharia Civil e aposentado da Caixa.
Autor de onze dez livros: Crônicas, contos, poesias e romances.
Membro da Academia Santa-Mariense de Letras – ASL e Sócio Efetivo da Estância da Poesia Crioula – EPC.
Patrono da 52ª Feira do Livro de Santa Maria – 2025.

Autor(a): ATHOS RONALDO MIRALHA DA CUNHA (Athos Ronaldo Miralha da Cunha)

APCEF/RS