Longe das fagulhas das fogueiras

Longe das fagulhas das fogueiras

Na sombra do preconceito e dor,
é no fervor da luta que desafia…
ação violenta destrói o fulgor,
da epiderme febril de misoginia.
No mundo repleto de silêncios,
onde lágrimas encharcam lenços,
num lar distópico de agonia.

Um oceano interno que reluz,
Tempestade… vulcão de orações.
No peito, o coração conduz,
olhos empoeirados de emoções.
Há rotina nos limites da clausura,
uma voz calada na noite escura,
numa vida repleta de privações.

Socorro! Pedido silencioso,
os dedos encobrem o polegar…
diante do abraço impiedoso,
simulação no ato de acariciar.
Gesto covarde de um ser rude.
Lamento sereno de quietude,
chamamento pleno de pesar.

Uma longa trilha percorrida,
vasto caminho da sofreguidão.
Fragrância… flor de margarida!
Sinfonia silente na palma da mão,
doce e meigo desejo de mulher.
Bem-me-quer! Malmequer!
Basta, simplesmente, um não.

Vanguarda certa nas travessias.
Guerreiras das grandes batalhas,
ombros pesados de ventania…
no compasso do fio da navalha,
e na solidão das dependências,
– destino penoso de aparências –,
nos corpos alvos de represálias.

Ecoa sonoro clamor das ruas,
nos cruzamentos vozes de paz…
Lógica sina que une e tumultua,
um grito que ressoa tão capaz.
Luta que envolve a emergência,
consolida, comprova a essência.
Nas chagas que ficam para trás.

Mãos que tecem a resistência,
um pensamento em sintonia,
na longa várzea das ausências.
Tenros cânticos de calmaria,
para viajar no imenso Universo,
a pena refaz o derradeiro verso…
Um passo à frente da utopia.

Olhares profundos de esperança,
para um futuro sem fronteiras.
O andejar avança… Avança!
A sina libertária abre porteiras.
– A bruxa que voeja nas alturas –,
dádiva de transcendental pintura.
Longe das fagulhas das fogueiras!

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Inspiração

O poema apresenta-se como uma composição de dimensão social e humanitária, centrada na denúncia da violência contra a mulher. Desde os primeiros versos, o eu lírico constrói um cenário marcado pelo preconceito, pela dor, pela misoginia e pelo silenciamento, revelando a condição de mulheres submetidas à violência.

Sobre a obra

A estrutura poética, marcada por estrofes de sete versos e pela presença de rimas, confere musicalidade e unidade ao texto. O vocabulário simbólico - fogueiras, tempestade, vulcão, navalha, margarida e porteiras - amplia a dimensão metafórica da narrativa.
A margarida, contrapõe-se à violência e reafirma o direito feminino.

Sobre o autor

Nascido em Santiago, Athos Ronaldo Miralha da Cunha é graduado em Engenharia Civil e aposentado da Caixa.
Autor de onze livros: Crônicas, contos, poesias e romances.
Patrono da 52ª Feira do Livro de Santa Maria – 2025.
Escritor selecionado para a 1ª Bienal do Livro Caixa – 18; 19 e 20 de setembro 2024. Brasília/DF.

Autor(a): ATHOS RONALDO MIRALHA DA CUNHA (Athos Ronaldo Miralha da Cunha)

APCEF/RS