Ponto de ônibus

Ponto de ônibus
1975
A noite escorria silenciosa sobre a cidade. As aulas haviam terminado fazia pouco, e os corredores da faculdade já estavam vazios quando os últimos passos dos alunos ecoaram em direção à rua.
No ponto de ônibus da Avenida Rio Branco, sob uma lâmpada amarelada que piscava de vez em quando, dois jovens aguardavam o coletivo das onze e quinze. Várias vezes, naquele semestre, se encontravam no ponto de ônibus. Eram parceiros solitários de espera do lotação.
Helena cursava o último ano de jornalismo na universidade pública. Trazia os livros apertados contra o peito, como se o mundo pudesse roubá-los. Usava um casaco azul-marinho herdado da irmã mais velha e tinha os cabelos presos de modo apressado.
Augusto era estudante de história em uma faculdade particular, olhos atentos e mãos sempre ocupadas em dobrar um jornal velho.
Tinham ambos vinte anos. A idade em que o futuro parece vasto demais para caber na cabeça. Conversavam amenidade e aguardavam lado a lado olhando a rua deserta. Coincidentemente sempre os dois únicos passageiros da última hora da noite. O vento frio arrastava folhas secas pela calçada.
– Sempre demorado esse nosso motorista particular… – comentou Helena.
– Sim, às segundas ele para no boteco da esquina – ambos sorriram.
E o sorriso dela Augusto guardaria por longos anos.
Ainda conversaram sobre professores severos, provas impossíveis, sonhos de viajar, cidades que nunca tinham visto. Descobriram gostar de livros tristes e de café forte.
Ernesto Geisel e Raul Seixas também foram assuntos daquela noite no ponto de ônibus. Quando o lotação surgiu ao longe, tossindo óleo queimado, os dois se entreolharam como se algo importante estivesse para ser dito. Mas não disseram.
Sentaram-se separados e cada um desceu em seu bairro levando consigo a impressão estranha de ter perdido alguma coisa que ainda nem possuía.
Naquela noite, ambos demoraram a dormir. Nãos sabiam, mas aquele fora o último encontro dos passageiros noturnos. Não se encontraram mais, pois no semestre seguinte Augusto conseguiu transferência para uma universidade pública e mudaria de cidade. Virou professor da rede estadual de ensino numa cidadezinha da fronteira. Helena, após a formatura, foi trabalhar em Porto Alegre como repórter de uma empresa de comunicação.
Ambos seguiram suas vidas, casaram e tiveram filhos e netos. Nunca mais se encontraram, mas a história deles não encerrou naquela última noite no ponto de ônibus. O destino é irônico e a vida prega peças que são inexplicáveis para a mente humana.

2015
Mesmo ponto de ônibus numa tarde de sol fraco, quarenta anos depois. O ponto agora tinha cobertura de acrílico, banco de ferro e propaganda de plano de saúde. A cidade crescera para todos os lados. A antiga Avenida Rio Branco agora tinha semáforos modernos, letreiros luminosos e ônibus climatizados.
Helena chegou primeiro. Os cabelos grisalhos lhe caíam curtos sobre a nuca. Carregava uma bolsa pesada e um cansaço discreto nos ombros. Viúva há três anos, aprendera a andar só sem fazer barulho.
Augusto apareceu minutos depois. Trazia o jornal dobrado debaixo do braço – hábito que resistira ao tempo, mesmo quando as notícias migraram para telas.
Parou ao lado dela. Os dois se olharam. Quarenta anos é maquiagem pesada. Mas o olho é teimoso.
Ele viu o sorriso inconfundível e o mesmo jeito de carregar a bolsa. Ela viu o trejeito nos gestos com a mão e o jornal embaixo do braço, parecia o mesmo de 1975.
A memória é um ônibus lotado: vem tudo junto, sem licença. O vento daquela tarde parecia irmão distante do vento de 1975. O coração dos dois bateu fora de compasso. Velho assusta fácil.
Ele quis falar. Ela quis falar. Mas nenhum comentário surgiu de bocas silenciosas.
Helena sentiu algo vibrar dentro da memória. Uma lâmpada amarela, livros apertados ao peito, um rapaz que falava do futuro como quem descreve um mapa.
Augusto olhou de relance para a mulher ao lado e viu, por trás das rugas suaves, os olhos da jovem que rira de seu comentário sobre o motorista bebum.
Nenhum dos dois falou. As lembranças afloravam como fotografias esquecidas dentro d’água. Não eram nítidas, mas doíam pela beleza incompleta. O ônibus mais uma vez estava demorado. O tempo, esse especialista em ironias, parecia saborear a cena.
Quando o coletivo enfim chegou, Augusto tomou a iniciativa:
– A senhora estudava na antiga faculdade de fisioterapia aqui de perto?
Helena sorriu de leve.
– Estudei jornalismo, mas já faz mais de século – ambos sorriram.
– Eu também. As noites eram frias neste ponto de ônibus.
Houve um silêncio comprido. Bastava um passo a mais, uma pergunta simples: Seu nome é Helena? ou Você é Augusto?
Mas quarenta anos criam muralhas invisíveis. Porque como é que se explica pra si mesmo o nó na garganta? Como é que um senhor de 60 anos diz pra uma senhora de 60 que ainda lembra do sorriso dela. É mais fácil fingir. Fingir dói menos que ter esperança e perder de novo.
Quem eram agora? Não mais os jovens da parada, mas pessoas moldadas por perdas, casamentos, filhos, enterros, contas pagas, remédios de uso contínuo e despedidas incontáveis.
Reconhecer o outro seria também reconhecer tudo o que não viveram juntos.
Entraram no ônibus. Helena sentou-se à frente e Augusto ao fundo. Desceram em pontos diferentes, como das outras vezes há quarenta anos. E, tal qual em 1975, ambos chegaram em casa com a sensação amarga de terem perdido algo que lhes pertencia. Como foi a última noite que esperaram o ônibus em 1975. Certamente, não haveria outro encontro.

2025
Dez anos depois, o destino cansou de esperar pela coragem humana. A Casa São Miguel era simples, cercada por roseiras e bancos de madeira. Ali os dias passavam em ritmo manso, marcados por horários de remédio, café da tarde e novelas antigas na televisão da sala comum.
Helena fora morar ali após um acidente doméstico e uma clavícula fraturada e Augusto, depois de vários lapsos de memórias que causaram preocupações aos filhos.
Na manhã de abril em que se encontraram, ela estava no jardim tentando lembrar o nome de uma flor. Ele aproximou-se devagar, apoiado em bengala.
– É azaleia – disse.
Helena ergueu os olhos. Demorou apenas um segundo. Desta vez, sem pressa, sem ônibus chegando, sem juventude intimidando, sem futuro para assustar ninguém.
– Você demorou desta vez e não trouxe o jornal – ela disse.
Augusto riu, com o mesmo riso tímido de rapaz.
– O trânsito estava ruim.
Sentaram-se lado a lado no banco de madeira. Passaram a tarde inteira conversando sobre tudo o que a vida fizera deles. Mostraram fotografias amassadas, falaram de filhos, de amores sinceros, de dores suportadas, de sonhos adiados.
Quando o sol baixou, Helena segurou a mão dele com naturalidade de quem retoma um gesto interrompido.
Naquela noite, ambos dormiram cedo e profundamente. Não havia mais sensação de perda. Algumas histórias de amor não chegam atrasadas. Chegam no exato instante em que o coração finalmente sabe esperar.

2026
Helena partiu numa manhã silenciosa de inverno. Não houve alarde, nem sofrimento demorado. A enfermeira encontrou-a serena, as mãos repousadas sobre o cobertor, como quem apenas descansava depois de uma longa conversa com o mundo. Na mesa ao lado da cama estavam os óculos, o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, marcado na página 75 e uma pequena azaleia colhida do jardim.
Augusto soube antes mesmo que lhe dissessem. Ao despertar, sentira no peito um vazio diferente, desses que chegam antes das notícias. Quando viu os corredores agitados e as correrias dos funcionários e a porta entreaberta do quarto dela, compreendeu.
Não chorou de imediato. A velhice ensina que certas dores entram devagar, como chuva fina. O velório aconteceu na capela modesta do bairro. Poucas flores, alguns parentes, antigos vizinhos, duas cuidadoras da casa de repouso, três antigos colegas de jornalismo e os filhos que vinham com a pressa constrangida de quem ama, mas mora longe. Uma única neta, Ângela de 17 anos caloura de jornalismo na mesma universidade da avó.
Helena parecia descansar outra vez. Tinham-lhe penteado os cabelos curtos e vestido o casaco azul-marinho que a filha encontrara guardado no armário. O mesmo, embora gasto pelo tempo, que ela usara numa noite distante de 1975.
Augusto aproximou-se do caixão apoiado na bengala. Ficou um tempo em silêncio. Os demais se afastaram, respeitando algo que não sabiam nomear.
A neta cochichou no ouvido da mãe: "Quem é aquele senhor?". A mãe não soube responder.
Ele observou o rosto tranquilo daquela mulher que conhecera há cinquenta anos. Inclinou-se um pouco e murmurou:
– O ônibus chegou, Helena. Desta vez eu não vou perder você de vista. Permaneço aqui no ponto.
Tocou-lhe a mão fria com extrema delicadeza, como se ainda pudesse aquecê-la.
Então chorou. Não com desespero, mas com a dignidade dos sentimentos antigos. Chorou pelos encontros perdidos, anos ausentes, longas tardes no jardim, conversas interrompidas pelo sono e pelas histórias que ficaram sem serem contadas.
Na saída da capela, pediu que o levassem até a antiga Avenida Rio Branco. Os filhos hesitaram, mas atenderam.
O velho ponto de ônibus continuava lá, modernizado outra vez, cercado por prédios mais altos e trânsito incessante. Nada lembrava a lâmpada amarela de antigamente, exceto o vento.
Augusto sentou-se no banco da parada e ficou olhando a rua. Pessoas iam e vinham sem notar aquele senhor de olhos úmidos sorrindo para o nada. Depois de algum tempo, falou baixinho, como se alguém estivesse ao seu lado:
– Agora eu espero.
E pela primeira vez, desde a juventude, esperava sem olhar a rua deserta. Nem o vento frio arrastou folhas secas pela calçada.

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Inspiração

O conto “Ponto de ônibus” constrói uma narrativa delicada sobre o tempo, a memória, os encontros adiados e a ironia do destino. Estruturado em quatro momentos — 1975, 2015, 2025 e 2026 —, o texto acompanha a trajetória de Helena e Augusto, dois jovens que se encontram casualmente em um ponto de ônibus.

Sobre a obra

O conto apresenta uma reflexão sobre as oportunidades que a vida oferece e sobre aquelas que deixamos passar por medo, silêncio ou circunstância. Seu mérito está em mostrar que certas histórias não terminam quando os personagens se separam.

Sobre o autor

Nascido em Santiago, Athos Ronaldo Miralha da Cunha é graduado em Engenharia Civil e aposentado da Caixa.
Autor de onze livros: Crônicas, contos, poesias e romances.
Patrono da 52ª Feira do Livro de Santa Maria – 2025.
Escritor selecionado para a 1ª Bienal do Livro Caixa – 18; 19 e 20 de setembro 2024. Brasília/DF.

Autor(a): ATHOS RONALDO MIRALHA DA CUNHA (Athos Ronaldo Miralha da Cunha)

APCEF/RS