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A cruz do passo
O conto **“A Cruz do Passo”** constrói uma narrativa de forte densidade psicológica, marcada pela culpa, pela memória e pela impossibilidade de escapar das consequências de um ato cometido no passado. Desde o início, a paisagem do inverno gaúcho assume uma função simbólica: o frio, o campo pardo, a estrada e a luz enfraquecida compõem uma atmosfera de desolação que espelha o estado interior de Amaro. A cruz de Severo, abandonada à intempérie, mas cuidadosamente visitada por Maria, torna-se o centro de uma memória que o protagonista tentou evitar durante dez anos.
Um dos aspectos mais expressivos do conto é a desconstrução gradual da justificativa de Amaro. Inicialmente, ele tenta atribuir o assassinato à honra ferida — “Homem não leva desaforo” —, mas a própria consciência desmente essa versão. A revelação de que matou por medo da humilhação e por vaidade confere profundidade ao personagem e retira do crime qualquer possibilidade de heroísmo. A frase **“Mentira dita em voz alta continua sendo mentira”** sintetiza esse confronto entre a narrativa que Amaro criou para si e a verdade que carrega.
O elemento fantástico surge de maneira sutil e ambígua, especialmente na aparição da bota, no vulto sem rosto e nos tentos que Amaro não recorda ter colocado na cruz. Essa ambiguidade é um dos grandes méritos do texto: não se sabe se os acontecimentos são sobrenaturais ou manifestações de uma consciência atormentada. O cavalo, quase como um personagem sensitivo, também participa desse universo, recusando-se a conduzir Amaro novamente ao local da morte.
O desfecho é particularmente significativo. Ao ajoelhar-se diante da cruz, Amaro não realiza apenas um gesto de arrependimento diante do morto; ele reconhece que também morreu simbolicamente naquela noite. A frase final — **“não sabe se reza pro Severo, ou pro Amaro que morreu junto”** — encerra o conto com uma poderosa imagem de redenção impossível. A cruz, portanto, não representa apenas a sepultura de Severo, mas o lugar onde a culpa de Amaro permaneceu enterrada durante uma década. Ao retornar ao Passo, ele finalmente se confronta com o morto e, sobretudo, consigo mesmo.
Inspiração
O conto “A Cruz do Passo” constrói uma narrativa de forte densidade psicológica, marcada pela culpa, pela memória e pela impossibilidade de escapar das consequências de um ato cometido no passado.
Sobre a obra
A paisagem do inverno gaúcho assume uma função simbólica: o frio, o campo pardo, a estrada e a luz enfraquecida compõem uma atmosfera de desolação que espelha o estado interior de Amaro. A cruz de Severo, abandonada à intempérie, mas cuidadosamente visitada por Maria, torna-se o centro de uma memória que o protagonista tentou evitar por dez anos.
Sobre o autor
Nascido em Santiago, Athos Ronaldo Miralha da Cunha é graduado em Engenharia Civil e aposentado da Caixa.
Autor de onze livros: Crônicas, contos, poesias e romances.
Patrono da 52ª Feira do Livro de Santa Maria – 2025.
Escritor selecionado para a 1ª Bienal do Livro Caixa – 18; 19 e 20 de setembro 2024. Brasília/DF.
Autor(a): ATHOS RONALDO MIRALHA DA CUNHA (Athos Ronaldo Miralha da Cunha)
APCEF/RS