A cruz do passo

A Cruz do Passo

O sol não esquenta um dia frio de inverno. É apenas luz de uma fraca lamparina. Cai a tarde e o campo parece coberto de palhas – céu azul desmaiado, chão pardo, tudo reverberando na vista –, o tordilho bate o casco na estrada e Amaro segue firme no seu intento. Faz três noites que não dorme direito. E tudo começou quando sonhou com a velha faca prateada.
A cruz aparece depois do capão, onde a estrada afunila e a sanga corre cristalina. Madeira preta, apodrecendo com a intempere.

Severo Salustiano de Almeida
* 04.04.1924 – † 06.06.1966

Riscado fundo, com letra tosca de quem pouco aprendeu. Ele mesmo talhou há dez anos. Dez anos desviando légua e meia pra não passar diante da sepultura na beira da estrada. Hoje, por algum motivo inexplicável, foi ao encontro da cruz.
Puxa a rédea e o tordilho e para a poucos metros da tumba. Aprendeu cedo que é melhor obedecer quando a mão do dono tá dura desse jeito. Amaro não apeia. Olha de cima e a cruz tá limpa. Maria vem toda sexta. Varre em volta e repõe as flores. Hoje é terça. A fita tá desbotada de velha, mas está lá em sua teimosia. Ele faz alguns cálculos. Dez anos, cinquenta e duas sextas por ano. Quinhentas e vinte vezes que ela ajoelhou aqui. Quinhentas e vinte vezes que ele não ajoelhou. A conta pesa mais que a faca e o trabuco na cintura.
– Não fui eu que comecei – fala alto.
A voz sai e o campo engole sem eco. Mentira dita em voz alta continua sendo mentira. O tordilho mexe a orelha e relincha. Cavalo julga menos que gente, mas julga. A memória vem inteira, sem que ele chame. Baile, graxa no chão, cheiro de churrasco e suor. Muita cachaça. Severo rindo… depois sério.
– Tu marcou meu terneiro, Amaro. Vi a marca.
Todo mundo olhou. O silêncio coagulou. Amaro lembra da vergonha subindo quente pelo pescoço. Lembra da mão indo no cabo da faca antes do pensamento. O corpo do Severo era mole que nem pão de forma. A faca entrou e saiu três vezes. O Severo olhou pra ele com uma cara… não era raiva. Era decepção. Ele balança a cabeça pra espantar. Não adianta. A cara do Severo mora atrás da pálpebra, grudado na memória.
Apeia e as pernas reclamam. Cinquenta e tantos anos e dez de peso na consciência. Tira o chapéu por costume, não por respeito. Agacha perto da cruz. Não toca porque tocar seria um sacrilégio.
– Tu me chamou de ladrão – diz pra cruz num sussurro, pra que só ele e o morto escutem. – Homem não leva desaforo. Tu sabia.
A desculpa soa podre até pra ele. Dez anos ensaiando e ainda soa podre. Porque no fundo ele sabe: não foi honra. Foi medo. Medo de ser desmascarado na frente da gauchada e de virar piada. Matou por vaidade. A palavra dói. Vaidade é coisa de cola fina da cidade.
Um vento levanta poeira e faz a fita bater na madeira. Parece dedo chamando. Amaro está molhado de suor e a boca seca. A canha daquela noite ainda arde na garganta, dez anos depois. É a culpa. Culpa tem gosto de ferro e sangue.
Ele fecha os olhos uns poucos segundos. Quando abre, tem uma bota ao lado da cruz. Bota campeira, gasta, igual a dele. Só que abandonada.
Levanta num salto, a mão na faca. O coração bate na goela e os olhos varrem o local. Não tem ninguém. Só a cruz, a fita, o campo. O tordilho nem bufou. Se tivesse gente, o cavalo tinha acusado.
Mas ele viu a bota e o couro rachado no mesmo lugar que a dele.
Respira fundo e conta até dez. Um. Dois. Três. O número quatro vem com a voz do Severo: ladrão!
Ele pensa com a voz do Severo agora. Isso é novo. Isso é ruim. Monta e a perna treme pra achar o estribo. Isso nunca aconteceu. A mão titubeia pra pegar a rédea. Esporeia o tordilho com raiva, com nojo de si. O bicho arranca em disparada.
Cem metros depois ele olha pra trás. A cruz é só um risco preto no campo. Mas ele jura que tem um vulto sentado na base. Um vulto sem rosto que tira o chapéu pra ele. Bate no tordilho até chegar em casa com o animal espumando e as mãos sangrando de tanto apertar o couro da rédea.
Aquela noite não dorme. Nem na outra. Na terceira, sonha que está afiando a faca. O chiado vira "Se-ve-ro… Se-ve-ro…". Acorda com a faca na mão e o dedão cortado e mancha de sangue no lençol.
De manhã, selou o tordilho. Tentou ir pro Passo. O cavalo empacou na curva do capão. Empinou, girou e recusou a empreitada. Amaro bateu até cansar o braço. O tordilho preferiu apanhar a chegar perto da cruz.
Amaro apeou e resolveu caminhar solito. Cada passo pesava como paralelepípedos das ruas das cidades. Quando chegou, a cruz tava lá. Igual como sempre esteve. Só que agora tinha dois tentos amarrados. Um de couro cru e outro velho, rachado, talhado coas as letras A e S.
Ele não lembra de ter amarrado. Não lembra de ter talhado. A fita saboreia o vento como aceno. E pela primeira vez em dez anos, Amaro de Souza se ajoelha. E não sabe se reza pro Severo, ou pro Amaro que morreu junto, naquela longínqua noite no passo.

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Inspiração

O conto “A Cruz do Passo” constrói uma narrativa de forte densidade psicológica, marcada pela culpa, pela memória e pela impossibilidade de escapar das consequências de um ato cometido no passado.

Sobre a obra

A paisagem do inverno gaúcho assume uma função simbólica: o frio, o campo pardo, a estrada e a luz enfraquecida compõem uma atmosfera de desolação que espelha o estado interior de Amaro. A cruz de Severo, abandonada à intempérie, mas cuidadosamente visitada por Maria, torna-se o centro de uma memória que o protagonista tentou evitar por dez anos.

Sobre o autor

Nascido em Santiago, Athos Ronaldo Miralha da Cunha é graduado em Engenharia Civil e aposentado da Caixa.
Autor de onze livros: Crônicas, contos, poesias e romances.
Patrono da 52ª Feira do Livro de Santa Maria – 2025.
Escritor selecionado para a 1ª Bienal do Livro Caixa – 18; 19 e 20 de setembro 2024. Brasília/DF.

Autor(a): ATHOS RONALDO MIRALHA DA CUNHA (Athos Ronaldo Miralha da Cunha)

APCEF/RS