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O MONSTRO MODERNO
O MONSTRO MODERNO
Sete da manhã. Entro na padaria, procurando um lugar para tomar café antes de ir para o trabalho. As mesas estão ocupadas e há um grande silêncio. É como se não existisse ninguém. No fundo da sala, uma senhora se levanta. Dirijo-me rapidamente para a mesa. Depois de sentar-me, vejo que tenho uma visão completa do local.
Fico a observar o comportamento dos fregueses, após pedir um suco, um café com leite e torradas. O celular domina as atenções e mesmo nas mesas com várias pessoas, ninguém conversa. Parece até que a luz que sai da tela do pequeno aparelho é capaz de hipnotizar. Ninguém levanta o olhar, não fala, é como se cada um estivesse sozinho na sala.
Observo que os rostos estão extasiados com o que os olhos conseguem captar da tela luminosa. Vejo, também, que eles se alteram de vez em quando, ora com um leve sorriso, ora com um ar de espanto e às vezes com uma expressão de raiva. Mas é só isso. Não há diálogo entre os presentes.
Um telefone toca, quebrando a monotonia, e os rostos se viram na direção do barulho, como se alguém estivesse cometendo um sacrilégio, ofendendo o sagrado silêncio que os permitia entregar-se totalmente ao pequeno monstro.
Assustado, afasto o meu celular como se com isso estivesse me defendendo de um monstro cibernético, mas ele percebe o que estou fazendo é dá um sinal indicando que tenho uma mensagem à minha disposição.
Respiro fundo na indecisão de ver do que se trata, mas temo ser mais um dominado por ele. Fico indeciso, quero abrir a caixa de mensagens, mas sinto-me observado por todos os presentes. Creio que todos estão zombando de mim, muito embora continuem com os olhos fixos na tela de seus aparelhos.
Observo atentamente todas as mesas e não vejo ninguém me olhando, mas o nervosismo está tomando conta de mim. Vejo as horas no relógio de pulso e observo que estou ali apenas há cinco minutos e é como se estivesse há várias horas.
Olho o celular na minha frente e vejo na parte superior da tela passar uma rápida informação: “Devemos Conversar”. Sinto um aperto no peito e várias perguntas tomam conta de minha mente. Conversar com quem? Mensagem de casa? Do trabalho? De alguém com quem teria que resolver um assunto sério?
Comecei a suar, embora o ar condicionado estivesse cumprindo bem o seu papel de resfriar o ambiente. Não queria pegar o aparelho e me tornar mais um a ser dominado pela fera.
Lembrei-me que meu avô contava histórias de situações de pânico, mas era quando tinha que enfrentar animais perigosos na selva. Dizia que temia as doenças sem cura e as secas, quando sabia que não conseguiria vencê-la. O meu medo, no entanto, provinha de um pequeno aparelho que poderia me dizer que eu era mais um a correr atrás de um sucesso e estava sendo passado para trás; que estava sendo julgado cruelmente por algo que eu não tinha feito; que estava sendo lento nas minhas decisões, enquanto outros conseguiam crescer profissionalmente como se conseguissem a receita nas redes sociais.
Trêmulo, fui vencido pela curiosidade. Ou foi pelo monstro? Ao tocar no celular, a energia foi-se de repente por completo. Imediatamente, todos ergueram a cabeça e reclamaram da queda do sinal de Wi-Fi. Vi em cada rosto uma expressão de pânico, como se estivessem nus, sendo observados pelos vizinhos de mesa, e seus segredos expostos.
Os rostos que viravam de um lado para outro mostravam uma expressão de medo do que cada um poderia estar pensando de si, sem a proteção do pequeno ícone. Era como se, de repente, a queda de energia pudesse revelar o que cada um tinha para esconder e agora eles estavam expostos, sendo avaliados por todos.
Foram breves momentos de tensão, mas pareceu uma eternidade.
A energia voltou e com ela o sinal do Wi-Fi. Aquilo foi suficiente para que todos suspirassem aliviados e esse suspiro coletivo provocou um som estranho, profundo, que ecoou na sala. Tudo voltou ao que estava antes. Outros diriam que voltou ao normal.
Aos poucos, meu medo foi-se esvaindo. Levantei-me, guardei o telefone no bolso. Não olhei as mensagens. Era melhor sair, enquanto eu tinha o domínio de minhas ações.
Não esperei o café.
Inspiração
Hoje em dia o celular domina o homem a ponto de fazer com que ele desprezar o convívio normal com as pessoas. Chega a esquecer que a seu redor existem seres humanos com sonhos, alegrias e tristezas e que muitas vezes estão carentes de um simples olhar para seguirem em frente nas suas caminhadas.
Sobre a obra
Procurei mostrar em poucas palavras uma situação que, embora imaginária, é bastante comum no nosso meio. Tentei analisar as reações que nos movem frente aos fatos e a necessidade de força de vontade para vencermos as tentações emanadas do celular.
Sobre o autor
Economiário aposentado, autor de sete livros, sendo dois deles contendo contos e poemas e cinco voltados para o romance de época, vivenciando a vida e costumes das pessoas tendo que enfrentar as dificuldades impostas pela miséria numa terra de poucos donos e muitas ganâncias.
Autor(a): ANTONIO VASCONCELOS PACHECO (A. V. Pacheco)
APCEF/PI
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