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SÓ DEPOIS DA PORTA ABERTA
SÓ DEPOIS DA PORTA ABERTA
Fernando acordou de repente, sentindo um imenso vazio. Olhou ao redor e viu sobre o criado mudo o relógio marcando cinco e quarenta. Mas o barulho na rua denunciava um movimento de horário avançado. Levantou-se e puxou a cortina. Do outro lado da rua, como quase sempre acontecia, sua vizinha olhava atentamente para a sua janela. Quando o viu, afastou-se rapidamente.
Antes de entrar no banheiro, ouviu o celular tocando. Era Artur.
? O que foi desta vez, Artur?
? A apresentação...
Não esperou o outro terminar de falar. Era sempre assim.
? O meu trabalho está pronto e eu tenho até o início da tarde para entregá-lo. Nós não vamos perder esta conta. Sei da sua importância para a empresa!
Quando desligou o telefone, jogou-o sobre a cama e entrou no banheiro. Olhou-se no espelho e viu o estrago que uma noite mal dormida tinha causado. As olheiras denunciavam a tensão que começava a tomar conta do seu dia. Ao abrir o chuveiro, viu um jorro de água vermelha cair no piso. Fechou-o, rapidamente e apertou os olhos com as mãos. Após respirar fundo, olhou ao redor e só viu a água escorrendo na direção do ralo. Pegou um tubo com comprimidos e jogou dois na boca, engolindo-os com a água do chuveiro.
O telefone tocou novamente.
Antes de atender, Fernando viu que se tratava de Solange.
? Eu ouvi a ligação de Artur. Não esquenta. A gente pode lidar com ele sem maiores problemas ? falou afetuosamente.
? Não tenho por que me preocupar, Solange. Se você quer me ajudar, veja se o dossiê que deixei sobre a minha mesa ainda continua lá. Fique de olho, não deixe ninguém tocar nele, pois já estou chegando.
Não falou mais nada, pois sabia que ao chegar encontraria uma xícara de café sobre a mesa com uns biscoitos. Era o que Solange sempre fazia sem explicação.
Como previra, o café estava ainda quente, já que correra como nunca. Tinha certeza de que umas multas de trânsito seriam o seu prêmio por não chegar muito atrasado.
Quando abriu o dossiê, viu que Edson o observava, mas fingiu não dar importância. Após alguns segundos, ele se aproximou e falou em tom confidencial:
? Examina esses papéis com cuidado, pois vi o Rogério mexendo neles, muito cedo.
Tempos depois, observou Rogério conversando na outra sala com Artur.
? Só falta me dizer que Gisele também esteve olhando esses documentos ? retrucou Fernando.
Gisele tinha uma aparência acolhedora, mas nem sempre estava presente e ninguém conseguia explicar suas misteriosas ausências.
? Se mexeu eu não sei, mas ela ficou um tempão na sala do Rogério. Isso aqui está virando um ninho de serpente ? disse Edson e voltou para sua mesa.
Seguindo o conselho, conferiu atentamente os documentos do dossiê e pela forma como se encontravam, concluiu que tinham tirado uma cópia. Pelo ramal, chamou Milena. Não sabia o motivo, mas foi dela que se lembrou para pedir ajuda. Pelo menos, para ter uma desculpa de tê-la ao seu lado.
? Estou precisando de ajuda sua. Sente aqui ? disse, apontando para uma cadeira que ficava à sua frente.
Explicou para ela que estava sendo pressionado para entregar o quando antes o dossiê para a diretoria e não queria correr o risco de cometer erros. Queria conferir a originalidade de toda a documentação.
Enquanto examinavam minuciosamente os papéis, viu que Solange o olhava atentamente. Sabia da grande amizade que ela nutria por Milena e deixava passar os comentários maliciosos dos colegas.
Novamente o telefone tocou. O nome de Edson apareceu no visor e Milena disfarçou um sorriso.
? O que é que está acontecendo hoje neste escritório? ? Indagou Fernando, com nervosismo.
Foi uma pergunta direcionada a si mesmo, mas em voz alta. Milena fechou o dossiê e entregou-o ao rapaz, deixando sua mão roçar de leve na dele. Sem se conter, ele respirou fundo e olhou para ela, mas viu que ela olhava na direção da sala de Artur, que verificava atentamente uns papéis que Rogério lhe mostrava.
? Ainda precisa de mim?
Ouvindo a voz sedutora de Milena, Fernando quase se descontrolou. Teve uma sensação estranha e respondeu apenas com um gesto negativo de cabeça, erguendo o polegar direito em forma de agradecimento. Quando ela deu as costas, virou-se na direção de Edson e viu que ele o chamava com um aceno de cabeça. Olhou para o celular e viu que havia uma mensagem dele:
“É hora da reunião”
O relógio da sala marcava onze horas e ele sabia que a reunião seria às catorze. Estranhando a mensagem, levantou-se e só então viu que a sala de Artur estava vazia, mas não era para se estranhar, já que ele era assistente de um diretor e quase sempre se ausentava.
As mulheres normalmente saíam para o almoço ao meio dia. No entanto, Fernendo viu Solange e Milena saírem juntas, o que raramente acontecia. Então, Edson aproximou-se de Fernando com ar de espanto:
? Desistiu de fazer a apresentação para a diretoria e a nova empresa?
? Me diz o que está acontecendo aqui, cara! A reunião está marcada para as catorze horas. Tá aqui na minha agenda ? disse, enquanto apontava para o notebook para mostrar o agendamento.
Edson ficou parado, vendo que ele arregalava os olhos olhando para a tela do aparelho.
? A minha agenda está toda apagada. Como pode ter acontecido isso?
? Alguém fez isso, com certeza ? explicou Edson.
? Não pode! ? Exclamou Fernando. ? Desde que comecei a montagem do dossiê eu não o deixei só nem um minuto.
? Não vamos perder tempo com isso, Fernando. Não sei se você sabe, mas existe um bichinho chamado vírus que trabalha às escondidas e faz o maior estrago. Vamos tentar corrigir esse problema, arrumando uma desculpa para o atraso. Seja qual for, mas que seja convincente.
Quando abriram a porta da sala de reuniões, Fernando ficou estático, pálido e não caiu porque foi amparado por Edson. Artur, assessorado por Rogério e Milena, fazia a apresentação da proposta de marketing para a empresa mais disputada no mercado de publicidade. Todo o seu trabalho de dias de planejamento, noites em claro, pesquisas de mercado nacional e internacional estava sendo exposto por quem nunca tinha dispendido o menor esforço para a realização do projeto.
Ao lado do Presidente da empresa, Márcia acompanhava a apresentação, enquanto rabiscava o seu inseparável diário. Ao ver Fernando entrar, ergueu prudentemente o diário, como se lhe o mostrasse. O rapaz supôs ver um discreto piscar de olhos, mas não levou em consideração, uma vez que ela era muito reservada e tinham raros contatos.
Vendo que Fernando não estava se sentindo bem, Edson levou-o a uma cadeira no fundo da sala e fê-lo sentar-se.
Pálido e com respiração ofegante, Fernando lembrou-se do que Márcia lhe dissera certa vez: “Você não conhece as pessoas com quem convive. Eu só ainda estou aqui por que sou protegida pelo meu diário”. Não entendeu por qual motivo ela lhe dissera isso, já que ela era muito reservada. Naquele dia até ficou espantado quando ela se aproximou sem mais nem menos e lhe falou isso com firmeza, afastando-se em seguida. Ela sempre chegava cedo e era uma das últimas a sair. Ninguém sabia ao certo qual era a atividade dela, pois ela tinha uma mesa apenas para ter um notebook pouco usado por ela.
? Teu trabalho está bem feito ? disse Edson em voz baixa. ? Artur vai conseguir o que sempre sonhou.
Fernando olhou para ele, esperando uma explicação, mas ele se manteve calado.
? Que sonho é esse que o levou a roubar minha apresentação?
? Não sabes que o diretor de marketing vai se aposentar agora? Ganhando essa conta, ganha a diretoria também.
Antes de a apresentação terminar, os dois saíram da mesma forma que entraram: sem serem percebidos pela maioria.
Fernando agradeceu a Edson pelo apoio recebido e disse-lhe que não voltaria na parte da tarde. Foi direto para casa, disposto a trancar-se e pensar no que faria dali para frente. Sabia que não teria condições de trabalhar num ambiente em que teria que estar sempre em contato com Artur, convivendo com Solange e Milena, vendo o sorriso zombeteiro de Rogério.
Na segunda-feira, levantou-se resoluto. Dizia intimamente que sua decisão era em caráter irrevogável. Ia limpar as gavetas da mesa onde trabalhara durante cinco anos e despedir-se de Edson. Seu maior receio era olhar para Solange e Milena e não sabia qual seria a sua reação se, ao chegar, encontrasse a xícara de café com os biscoitos em sua mesa.
Fez o percurso de casa para o trabalho tão lentamente que talvez tenha sido multado por atrapalhar o trânsito. Hesitou ao aproximar-se da entrada do prédio. Em poucos minutos, muitos sonhos passaram por sua mente, sonhos que não chegaram a se realizar, mas isso não era nada. O que lhe martirizava era o sorriso enigmático de Milena e a dolorosa sensação que sentira ao leve toque de sua mão, quando ela sabia que o estava traindo.
O telefone tocou e viu que era uma ligação de Édson. Não atendeu.
Sentiu frio e não soube dizer se era um aviso para não entrar, ou se era a sua vida profissional que estava se esvaindo aos poucos. Mas a vida tinha que continuar e aquilo era só uma queda. Levantar-se e seguir em frente era o mínimo que deveria fazer.
Pegou o elevador e saiu ao quinto andar. Havia um silêncio desanimador. Parecia até que todos haviam desaparecido e ele estava à procura do nada num lugar onde seus sonhos tinham sido sepultados.
Com passos firmes, empurrou a porta e quase desmaiou quando, entre gritos e palmas, ouviu:
? Seja bem vindo, Senhor Diretor!
Do outro lado da sala, Márcia ergueu seu inseparável diário em sinal de vitória e, com um enigmático sorriso nos lábios, deixou o recinto.
Inspiração
A vida profissional é cheia de ciladas. Algumas pessoas não se importam em procurar pisar o colega, usando-o como degrau para subir na empresa. Isso não quer dizer que todos ajam dessa maneira, mas sempre aparece alguém que quer crescer utilizando-se da lei do menor esforço.
Sobre a obra
Procurei descrever uma situação em que a falta de caráter faz com que um colega de trabalho lança mão da desonestidade para galgar postos dentro da empresa, em detrimento do esforço de outro. Procurei fazer ver que em situações assim alguém pode torcer a ajudar a corrigir as falhas humanas a fim de que nem sempre a ganância vença.
Sobre o autor
Economiário aposentado, advogado, membro da Academia Piauiense de Poesia, autor de sete livros, sendo dois de contos e poemas e cinco de romance de época que procura mostrar as carências e os sofrimentos dos homens do campo em um período em que as terras pertenciam a poucos e a ganância não valorizava o ser humano.
Autor(a): ANTONIO VASCONCELOS PACHECO (A. V. Pacheco)
APCEF/PI
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