Talentos

Sobre pessoas, não números

Chamava senha um, dois... dez... cento e um... e depois de um dia de trabalho, centenas de "bom dia" e "boa tarde", costas doendo, às vezes os dedos também, registrava sua saída do emprego. Então, começou a perceber que algo do trabalho não saía de si. As conversas rápidas durante o atendimento dos clientes faziam com que seu posto de trabalho, além de um ambiente de prestação de serviços, se tornasse uma espécie de vitrine da vida real, ou um documentário vivo. Aquele era um dia diferente, marcado por uma mudança importante, era o fim de uma etapa. Se prestou a recordar e visualizar sua vitrine de momentos.

Diariamente acordava, cumpria suas tarefas pessoais matinais e seguia para mais um dia de trabalho, ciente que, ao contrário, milhões de outros em seu país, acordavam e não tinham certeza se deveriam continuar a procurar emprego. Adentrava o local onde trabalhava, distribuía três ou quatro "bom dia" e seguia para seu posto, no guichê de caixa.

Batia seu ponto da maneira mais pontual possível e em instantes o ambiente estava tomado por uma diversidade constante de pessoas. Ali sempre havia indivíduos de todas as idades, etnias, credos, tribos... gente empregada ou vítima do desemprego, aparentando transbordar saúde ou perecendo sem ela. Havia pessoas com alguma deficiência física ou mental. Sempre tinha a certeza de que, camuflados e tentando ser convincentes, havia aqueles com alguma deficiência moral. Havia também os calmos e aqueles cujos dias pareciam bem difíceis. Difícil definir o conjunto tão complexo de pessoas com as quais dividia espaço, diariamente.

Na vitrine já estiveram apostadores sortudos! Muitos ricos com ar de pobreza e, pelo contrário, também pobres com ar de riqueza. Assistiu a uma mãe desabafar que seu filho a fez aplicar tudo o que possuía em um negócio que nunca existiu a ponto de deixá-la quase sem teto e recursos para se manter. Assistiu inúmeras vezes aposentados irem buscar seus salários mínimos e perceberem que nada lhes restou, exceto o desalento e a necessidade de buscar ajuda para renegociar contratos com as financeiras com as quais eles se endividaram absurdamente. Presenciou dificuldades...

Nessa sua vitrine, assistiu pais e avós buscarem mensalmente valores que, apesar de parecerem pequenos, poderiam, não raro, ser todo o dinheiro que a família tinha para o mês, e se perguntava como seria quando eles não mais recebessem aquele valor. Afinal, crianças crescem. Algumas mães iam com os novos filhos caçulas no braço buscar esse dinheiro, deixando claro que havia um buraco negro entre os casais financeiramente pobres e o conceito de planejamento familiar. Recordou que, certo dia, atendeu uma jovem moradora de rua, e enquanto processava o serviço, ela lhe contava suas dificuldades. Buscava o benefício mensal e seus filhos moravam em uma casa de apoio. A pessoa atendida depois da moradora de rua tinha muitos impostos de seu vários imóveis para pagar. Se pudesse nomear essa parte do documentário vivo, chamaria de "Contraste".

Havia ficado claro que não há estereótipo para pessoas de má fé. Nessa vitrine variada, aqueles com deficiência moral se disfarçavam de bons, atrás de um semblante humilde e simpático, ou vestiam-se com uma roupa impecável. Em sua rotina, viu que essas pessoas não tem idade, classe social, etnia, religião ou qualquer característica bem definida. A má fé pode residir nos mais improváveis. Recordou-se de quando atendeu um simpático rapaz que tinha uma cópia tão perfeita de uma identidade, que considerou sorte ter percebido a tempo de negar o serviço. Também de seu colega de trabalho coletando impressões digitais de uma "pobre senhora analfabeta" que nem os mais otimistas diriam que eram as mesmas digitais do documento. E quanta dificuldade alguns viam na necessidade de explicar a origem de seu dinheiro! Alguém que se dizia político, amigo desse ou daquele outro político, acreditava que isso lhe bastava para fazer o que precisava, apesar de não portar nenhum documento, como deveria. "Afinal, quem disse a esse indivíduo que suas relações pessoais ou qualquer influência que possa possuir quebram regras? Onde já se viu? No noticiário, talvez...", pensou. Assim, concluiu que onde há pessoas, processos e algum valor, os corruptos buscarão espaço. Triste verdade. Perguntou-se como seria se as pessoas fossem apresentadas bem cedo ao conceito filosófico de ética. Refletiu sobre isso e desejou que, com sorte, ainda houvesse quem escrevesse e lesse sobre filosofia e sociologia no futuro. Parecia-lhe lógico que esse conhecimento de certo e errado dentro de uma sociedade traria economia aos cofres públicos e retorno ao contribuinte.

Entre os itens felizes da vitrine, havia as lembranças das pessoas para as quais deu um troco errado com consequente prejuízo para si mesmo, e em um gesto honesto, obteve devolução. Testemunhou o trabalho de um pequeno empreendedor até se tornar um grande empregador. Havia as pessoas que compareceram felizes ali, ainda que tivessem motivos para tristeza, como uma senhora em tratamento de câncer de mama que mensalmente assistiu ficar mais careca e pálida, e ainda assim estava sempre feliz, simpática e vaidosa. Nunca mais a viu, mas em seu coração, mesmo não sabendo mais nada a seu respeito, desejou que tivesse vencido sua luta.

Lembrou-se, empaticamente, de momentos em que se constrangeu quando clientes choraram como crianças em sua frente e, sem preparo, lhe coube falar palavras de consolo para a perda de um filho ou outras tristezas...

Viveu situações inusitadas, como a de uma senhora que digitou seu nome em um papel e o plastificou. Por um bom tempo teve notícias de que ela ainda o possuía, o que acariciou um pouco seu ego de funcionário, porque podia significar que seu contato representou algo positivo para a senhora. Recordou-se de quando mal pôde se concentrar quando atendeu um presidiário, pensando se o que ele fez de errado poderia ter sido evitado com educação e emprego. Assistiu alguém, que satisfeita e tímida, desejava que seu nome fosse alterado porque conseguiu, na justiça, mudá-lo, uma vez que o de batismo lhe causava constrangimento e não a representava. Refletiu sobre quantas vezes pessoas assim, em todo o mundo, sofriam com a falta de empatia e menosprezo de suas necessidades de mudança, tratando-as como se fossem piada ou erro. Veio-lhe à mente meia dúzia de conhecidos que não concordariam com tais diferenças. Não os considerou, portanto, diferentes de muitos que ignoram necessidades de mudança em situações cotidianas, em todo o mundo, onde pesam de forma velada, critérios com base na pele, gênero, origem, religião e outras questões. Os critérios poderosos, de fato, dizem respeito a conhecimentos, habilidades, atitudes e ética.

Eram tantas histórias que seria uma vitrine enorme ou um documentário interminável. E com tantas pessoas e situações, percebeu algo interessante: não apenas trabalhou prestando serviços, mas o trabalho, com a diversidade contida em cada particularidade, lhe prestou serviço também, para valorizar a individualidade sendo necessário, em seu devido momento, ser firme quando se está do lado certo das regras, generoso, empático, resistente, resiliente, grato e, em certos casos, incisivo e crítico.

Finalmente, o dia de um futuro que parecia mais distante chegou e se viu mais velho em seu último dia de trabalho ali. A aposentadoria chegou impondo felizes mudanças. Fazia parte de um grupo de pessoas que ainda podiam ter a certeza da aposentadoria. A pontada de tristeza ficava por conta da dúvida se seus descendentes a viveriam.

No dia seguinte, não haveria mais ponto a registrar, nem senhas, nem emails, reuniões... Mas, como em outros dias de trabalho, um pouquinho do emprego ficou em seu íntimo. Ficava algo que não tinha a exatidão típica de suas tarefas diárias, nada relacionado a números. Apesar de dias bem desafiadores em vários aspectos já vividos (foram muitos mesmo!), sentiu-se alegre e honrado por ter feito, minimamente, parte da vida de muitas milhares de pessoas ao longo de anos, e com elas ter aprendido algo, mesmo que não soubesse absolutamente nada da vida da grande maioria delas e nem elas, da vida dele.

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Inspiração

Várias vezes na rotina me surpreendi com algo feliz, desafiador ou triste que presenciei, e que me marcavam de alguma forma. Essas situações me inspiraram.

Sobre a obra

Criei um personagem que, em seu último dia antes de se aposentar, fica reflexivo e conclui que anos de trabalho lhe renderam muitas memórias e conclusões sobre si mesmo.

Sobre o autor

Sou de Almenara/MG, tenho 32 anos, tenho um filho de 4 anos e estou na Caixa há quase 7 anos. Hoje, trabalho em Guarapari/ES. Sempre gostei de escrever e gerar significado com isso. Perdi isso com o tempo, mas o concurso me provocou. Aqui estou.

Autor(a): HELOISA GOMES SOARES DE SOUZA (Heloísa Gomes)

APCEF/ES


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